Aba! Aba!

Daphne disputava minha atenção que, naquele momento, estava voltada a assistir, curiosa, a valentia dos meninos de Akko que saltavam do alto de uma plataforma da cidade velha para as profundezas do mar Mediterrâneo.

Era um salto mortal e desafiador; um centímetro à direita, ou à esquerda, certamente levaria o guri à morte. Pois, dentro das águas turvas do mediterrâneo, habitavam dezenas de pedregulhos das ruínas do que, a milhares de anos, fora um porto.

Aba! Tavili pita aba!

Daphne, inspirada por uma menina mais velha da mesa vizinha, queria jogar pita aos peixes.

Lo Daphne, você sabe que é proíbido jogar coisas no mar.

Minha mulher jogou-me, com o perdão do trocadilho, um olhar de quem sabia que meu argumento não seria suficiente.

Abaaaaaa!

Tá bom, mas só um pedacinho….

Estendi meia pita para Daphne. Ela abriu um sorriso de orelha-a-orelha e atirou um pedacinho ao mar.

Pronto, vamos nessa?

Od Pitaaaaa!

Nu! Beemet!

Pegamos nossas coisas e ignoramos Daphne.

Enquanto isso, a menina da mesa vizinha continuava alimentando os peixes. Foi quando, subitamente, Daphne atirou ao mar seu bakbuk maim. Minha esposa, naquele estilo israelense, irritou-se:

Lo Daphne! Ma at ossa! Uf!!!

Tínhamos acabado de comprar o tal do babuk, uma vez que o anterior havia sumido misteriosamente. Lá iam-se cinquenta shekels ao mar.

Lo nora.

Disse.

Agora os peixes além de fartarem-se com a pita poderão saciar a sede com o bakbuk!

Essa era uma daquelas piadas fora de hora. Minha esposa me olhou com olhar de reprovação, enquanto eu ria de minha própria piada. Foi quando tívemos, quase que simultaneamente, a idéia de pedir para que um dos meninos buscasse o babuk maim.

Porém, o babuk estava distante de onde os jovens saltavam. Nossa única esperança era que a correnteza o carregasse em direção aos garotos. Para nossa sorte, como se o mar desejasse o seu resgate, não demorou muito para que isso acontecesse. Peguei Daphne no colo e corri para o alto da cidade velha.

Hey! Shalom! At ierol lazorlano?

Pedi ajuda para o primeiro menino que encontrei, um jovem árabe de uns dezesseis anos, moreno e molhado. Ele acabara de saltar e escalava uma escada lateral, carcomida pelas ondas do mar, de volta à plataforma.

Eu te dou 10 Shekels!

O menino, surpreso, dispensou a moeda e disse que resgataria o babuk maim no próximo salto. O cor-de-rosa do bakbuk vibrava em meio às águas turvas, não seria difícil para o garoto localizá-lo.

Peguei Daphne no colo e observamos atentamente a destreza do guri. Ele tomou distância, correu e saltou. Depois de alguns segundos ouvimos o “cabum” da água. Não demorou muito e lá veio ele com o braço direito estirado agarrando o bakbuk rosa como se fosse um troféu olímpico.

Untitled

Menino salta de uma plataforma da cidade antiga de Akko nas águas do Mar Mediterrâneo – crédito: Daniel Rabetti.

Eize guibor!

Celebrei em alto e bom som.

Daphne era pura alegria, abraçou forte o bakbuk e disse todah ao garoto. Antes de partírmos, o menino, abrindo um sorriso inesquecível, disse:

Pam aba temale oto im halav!

Daphne, e seu bakbuk maim, acabavam de conhecer um novo herói: o jovem valente da cidade velha de Akko.

Notas desta crônica

Daphne é uma garotinha israelense de dois anos e meio. Curiosa e esperta, observa o mundo ao seu redor.

Mantive, propositalmente, alguns trechos desta crônica em hebraico transliterado para que o leitor se coloque no contexto israelense dos diálogos.

Veja abaixo as respectivas traduções:

Bakbuk maim – בקבוק מים – Mamadeira com água

Aba – אבא – Pai

Tavili pitaתביא לי פיתה –Traga-me Pita

Lo – לא – Não

Nu! Beemet! – נו באמת – Fala sério!

Ma at ossa! – מה את עושה – o que você está fazendo!

Lo nora לא נורא – Tudo bem.

At ierol lazorlanoאתה יכול לעזור לנו? – Você pode nos ajudar?

Eize guibor! – איזה גיבור – Que herói!

Pam aba temale oto im halav! פעם הבאה תמלא אותו עם חלבNa próxima vez encha ele com leite!