Iniciamos aqui uma série de artigos que traz a voz da comunidade judaica brasileira ao Times of Israel. Nesta primeira peça, Ariel Krok, diretor da ONG Juventude Judaica Organizada, exprime suas perspectivas sobre o conflito sírio.

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Este último ataque químico na Síria está longe de ser novidade. Seis anos depois do início, 500.000 pessoas morreram e há mais de 10 milhões de refugiados/deslocados. Crimes de guerra? A dar com o rodo. Violações dos direitos humanos? Centenas por minuto. Racismo, misoginia, abusos? Forget about it!

Motivo suficiente para revoltar até a mais fria das baratas. Pois é, só que estranhamente o silêncio é a praxe, há anos. O desinteresse é generalizado, ONGs, grupos feministas, agências, comitês, grupos de defensores dos diretos humanos… Tão tímidos, tão preguiçosos, porque diabos?

Ok, seria feio da minha parte não reconhecer o imenso trabalho destas ativas organizações com ações mundiais diuturnamente pensadas, coordenadas, divulgadas, patrocinadas e colocadas em prática. Com um pequeno detalhe, todo este esforço, toda esta grana, todo este tempo, é direcionado majoritariamente a um único alvo, Israel!

Já no primeiro ano da guerra Síria, morreram mais pessoas e/ou foram refugiadas/deslocadas do que em todos os 70 anos de conflito palestino-israelense, já é o maior número refugiados desde a II Guerra Mundial.

Mas as discussões em universidades, boicotes acadêmicos, artísticos e comerciais são em sua imensa maioria direcionados contra Israel. Só Israel!

Hospitais, escolas, clínicas, casas, civis, mulheres e crianças atacados diariamente, mas as condenações da ONU, do Conselho de Segurança e do Conselho de Direitos Humanos tem rotineiramente um consenso, Israel.

Assad, o ditador cujo pai lhe serviu de exemplo quando assassinou 20.000 cidadãos em Hama, 1982, passeia com sua mulher Asma (foto do Instagram), enquanto seu povo é dizimado. Está relativamente sossegado, vem conquistando vitórias expressivas graças ao grande apoio do Irã (com seu fiel proxy, Hezbolah) e Rússia do Neo-Czar Putin.

Fonte: Instagram, Asmaalassad.

Fonte: Instagram, Asmaalassad.

Manifestações em embaixadas, faixas, cartazes, camisetas, panfletos, palavras de ordem e queima de bandeiras? Nem Russa, nem Iraniana, nem Síria, só a branca e azul, com a estrela de David no meio.

Não digo que a questão palestina não seja merecedora de atenção, é sim! Nunca achei que a busca por um estado palestino, em paz e prosperidade, não fosse uma prioridade, é! Mas convenhamos quanto à extrema urgência da Síria, não? No entanto, a causa palestina está cada dia mais em voga. Festivais de filmes, festivais gastronômicos, semana do apartheid israelense… E quanto à Síria?

A sensação que dá é que o sangue sírio vale menos que outros. Nem os Sírios-Palestinos mereceram atenção, um vilarejo de maioria palestina, Yarmouk, a poucos minutos de Damasco (foto google maps) foi bombardeado, cercado, asfixiado enfim dizimado. Mas grupos como o BDS (movimento de boicote, desinvestimento e sanções contra Israel), SJP (Students for Justice in Palestine), entre tantos, não estão nem aí, o negócio deles é: “palestinos em relação a Israel”, todo o resto não interessa!

Chamo este fenômeno de “obtusidade seletiva”, aquela que enxerga problemas reais, porém apenas onde as interessa. Por ideologia, ignorância, má fé ou todas as anteriores, não conseguem enxergar ou se enxergam, não agem, ou se agem é muito timidamente para o tamanho do problema. Deixam assim de lado todos os outros conflitos, muitas vezes maiores, mais violentos e mais urgentes, lastimável! Até quando vão atacar unicamente Israel enquanto a Síria, o Iêmen, Sudão do Sul entre tantos, sangram em dor profunda?

Por Ariel Krok,
Diretor da ONG Juventude Judaica Organizada