O Legado de Moscou

Conhecer o país, os lugares, a história e um pouco do que os meus antepassados viveram em tempos longínquos sempre foi algo que muito me interessou. Poder viajar e estar ali nestes mesmos lugares, vivenciando a cultura, que era a da minha família na época, visitar locais que provavelmente minha família visitou em algum momento da historia, comer as comidas típicas que eventualmente meus familiares costumavam comer (quando havia comida é claro), sentir os cheiros, o clima (bem frio por sinal), os sabores e a atmosfera, apesar de décadas depois, é algo impagável.

Tive a honra de ter sido convidado para o Encontro Regional do JDCorps (Jewish Diplomatic Corps) braço diplomático do Congresso Judaico Mundial (WJC), entidade-teto do judaísmo no mundo, em Moscou na Rússia. Este seleto grupo é composto por aproximadamente 250 ativistas de mais de 50 países com comprovada atuação em suas comunidades, juntos, coletivamente e cada um em seu país, tratando de representar e fortalecer as comunidades judaicas em todo o mundo através de relações inter-religiosas, de combate à deslegitimação de Israel, combate ao antissemitismo bem como a salvaguarda dos direitos humanos e dos direitos das minorias.

Paralelamente a esse evento, aconteceu a II Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Xenofobia e Antissemitismo, organizado pelo Congresso Judaico Russo em parceria com o WJC e apoio do governo Russo. Foram convidados apenas quatro membros do JDCorps das Américas do Norte e Sul, um americano, uma canadense, um argentino e eu. Dias intensos com muitas discussões, propostas, análises e trocas de experiências com pessoas do mais alto nível de conhecimento, autoridades, jornalistas e formadores de opinião de todo mundo.

Tivemos a oportunidade de visitar o Ministério das Relações Exteriores Russo e iniciar uma conversa muito amistosa e promissora com o chefe do Conselho de jovens Diplomatas Russos do Ministério das Relações Exteriores. Em outro dia, fomos recebidos na Duma de Moscou, o Parlamento Moscovita que abriga o Executivo e o Legislativo e dialogamos com o “cabeça” da Duma, de forma produtiva e franca.

Ministério das Relações Exteriores da Rússia

Fato já bastante documentado o antissemitismo em todo mundo, principalmente na Europa é crescente e cada vez mais violento, vide último levantamento feito pela CNN em Novembro de 2018. De xingamentos e ameaças aos ataques físicos que já viraram rotina em algumas capitais Europeias como Londres, Paris e Bruxelas com um terror que só aumenta junto com a ignorância que cada dia “expulsa” mais judeus da Europa em direção a locais mais seguros, cada vez mais, Israel.

Mas não na Rússia aonde, segundo relatórios, o antissemitismo chegou a cair no ultimo ano, na contramão de muitos países Europeus. Apesar de seu passado sangrento com ataques, saques e assassinatos rotineiros em aldeias judaicas, com a anuência e muitas vezes participação do poder local, conhecidos como Pogrom, passando pela infame publicação dos Protocolos dos Sábios de Sião, uma catastrófica farsa que havia sido encomendada pelo Czarismo dos Romanov a fim de culpar os judeus por todas as mazelas Russas e que instigou o assassinato de milhões na II Guerra. Sem falar de todo sofrimento nas mãos dos bolcheviques e de absolutamente todos os governantes russos que nunca foram amigos dos judeus, muito pelo contrario.

Apesar de todo sofrimento por séculos, hoje a comunidade judaica Russa finalmente goza de prestígio, prosperidade e influência. Segundo seus líderes, Putin é na verdade o primeiro governante russo filossemita. dizem que ele só chorou duas vezes em público, a primeira vez durante o enterro da sua mãe, e a segunda quando soube da morte de sua antiga professora judia que vivia em Israel e cuja ajuda de Putin foi inestimável para sua velhice tranquila.

O Rabino chefe da Rússia, Rabbi Berl Lazar, que tive o prazer de conhecer, é bastante próximo de Putin que sempre o convida para encontros com Israelenses que vem à Rússia e para as viagens à Israel acompanhando a comitiva Russa, mostrando assim sua amizade e influência nunca antes imaginada neste país em relação aos judeus.

Durante sua palestra ele disse em referência ao ataque terrorista em Pittsburgh: “Cada criança deve se orgulhar de sua tradição e dos mandamentos que D’s nos deu. Essa é a nossa resposta aos eventos em Pittsburgh… Nossa tarefa é nos orgulharmos de nosso judaísmo”.

Rabino chefe da Rússia, Rabbi Berl Lazar

Tivemos também a oportunidade de escutar Irina Bokova, Diretora Geral da UNESCO (de 2009 a 2017) que falou: “O ódio aos judeus é antigo, mas adotou uma nova máscara, às vezes até por trás da liberdade de expressão. Há um novo antissemitismo hoje em demonizar Israel”. Em seguida lembrando as palavras do sobrevivente do Holocausto Samuel Pisar ela disse: “Eu falo não apenas para lamentar os mortos, mas para advertir os vivos” algo imprescindível nos dias de hoje onde cada vez mais pessoas simplesmente desconhecem, e paulatinamente negam, os horrores do Holocausto.

Irina Bokova, Diretora Geral da UNESCO

Vale mencionar as palavras do Mufti Tártaro Albir Krganov: “Nós Tártaros, temos um ditado: “Por favor, protejam os judeus. Se não houver mais judeus, você será o próximo!” Todos nós temos que entender isso e ser cautelosos.

Mufti Tártaro, Albir Krganov

No final acabei ficando bastante próximo de um colega JD da Bósnia que trabalha como dirigente de serviços sociais para sobreviventes do holocausto em Sarajevo, terra muito castigada pela guerra com a Sérvia que devastou o país e matou milhares de civis. O próprio Vladimir foi atingido por estilhaços no ombro quando era criança e sua irmã não morreu por ter sido cabeça dura ao insistir em dormir no lado contrário da cama já que toda família precisou se alojar no único quarto seguro da casa alvo de snipers sérvios. Ao perguntar da relação entre as comunidades judaicas dos dois territórios, fiquei aliviado em saber que apesar da guerra ambos se mantinham próximas em ajuda mútua, afinal pertenciam a mesma comunidade na então Iugoslávia. Ele também falou, para minha surpresa, que graças aos contatos desta comunidades, apesar de minúsculas, puderam arrecadar mais de 40% de toda ajuda humanitária distribuída na Bósnia durante a guerra. Vale a pena ver o vídeo sobre o episódio.

Enfim, são oportunidades como esta que ajudam a colocar o Brasil na rota do que há de mais atual em matéria de Jewish Advocacy, Diplomacy e de combate a todas as formas de racismo e antissemitismo. Voltamos com energia renovada, com muitas informações importantes e com diversas ações visando o bem de nossas comunidades em todo mundo.

Cпасибо, obrigado.

Ariel Krok

About the Author
Ariel é administrador de empresas formado em Comercio Exterior no Mackenzie, tem um MBA em Marketing na ESPM e Curso de Especialização em Liderança Empresarial e Comunitária na Instituição de ensino superior e pesquisa Insper e no Instituto Rutenbergem em Haifa - Israel. É palestrante ativo com apresentações em escolas, sinagogas, centros comunitários, igrejas, clubes, etc, com 25 anos de voluntariado comunitário como monitor, instrutor, dirigente e diretor de instituições. Há mais de 22 anos é um estudioso e entusiasta da historia, política, diplomacia e geografia no mundo mas principalmente do Oriente Médio. Morou em Israel e já retornou mais de uma dúzia de vezes para lá e para outros países da região (Egito, Territórios Palestinos ..). Em várias oportunidades teve contatos, encontros, discussões com diversas autoridades, formadores de opinião e jornalistas, em Israel, EUA e Brasil. Escreve artigos publicados em diversas mídias, como a Revista Shalom, Blog do Jornal Times of Israel, Tribuna Judaica e Portais como Pletz, WebJudaica, sites, etc ... Membro do JDC (Jewish Diplomatic Corps) do WJC (World Jewish Congress) ; Diretor na JJO (Juventude Judaica Organizada); Conselheiro no Fundo Comunitário Jovem;
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