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A paz através do Homus

Logo do Campeonato, desenhado pelo genial Leandro Spett.
Logo do Campeonato, desenhado pelo genial Leandro Spett.

Esta semana, mais exatamente na quarta-feira, foi realizado o primeiro campeonato de homus das religiões abraâmicas no Brasil. Muito mais que uma disputa a ideia, que acabou se concretizando de forma maravilhosa, era promover um amistoso no melhor sentido da palavra.

Tive o privilegio de capitanear uma equipe de três bravos guerreiros que meio sem querer entraram nesta barca de cabeça e juntos fizemos acontecer um evento espetacular, algo inédito no Brasil, tão necessário mas tão renegado.

Os abnegados Alex Besborodco, Mauricio Schuartz e Shlomo Assaf junto com Silvia Perlov, RP do CJL, Fabio Spzperling, fellow JD e Gabriel Buznick, organizador do 1o campeonato na Argentina.

Costumo dizer que o Brasil, como todos sabemos, tem inúmeros problemas, mas a relação entre árabes e judeus é um exemplo para todo mundo que pode e deve ser divulgado para nos quatro cantos deste planeta, à exaustão. Falei sobre esta relação anos atrás quando tive a oportunidade de escrever um artigo para o Al Arabyia, maior media outlet da Arábia Saudita, quem tiver curiosidade basta acessar: https://english.alarabiya.net/features/2018/08/01/Brazil-A-tropical-haven-for-Arabs-and-Jews

Euzinho.

Voltando para nossa experiência desta semana, nesta ocasião decidi fazer um discurso para os presentes, árabes cristãos, judeus e muçulmanos, turcos, sírios e libaneses. Coloco abaixo na integra: “Finalmente chegamos no dia 21/09, dia Internacional da Paz pela ONU, não à toa foi o dia escolhido para esta festa de união entre nossos povos.

Começo com as palavras do nosso antepassado em comum: E disse Abraão assim: “Que não haja conflito entre nós… porque somos irmãos”.

Essas palavras ditas pelo próprio homenageado desta noite, de quem judeus, cristãos e muçulmanos são descendentes, nos lembram que a religião não está fadada a ser causa de conflitos, muito pelo contrário, pode e deve ser uma força para a paz.

Sou um ativista pelo contato inter-religioso desde muito cedo, mesmo sem perceber. Desde muito pequeno estudei em escolas não judaicas próximas da minha casa no Jardim Lusitânia (onde também está localizado o Clube Monte Líbano) e fiquei amigo de inúmeros descendentes de árabes. Frequentei muitas casas no Planalto Paulista de famílias com nome Dahdal, Kalil, Bittar, Mansour e Dib, todos eles sempre souberam do meu judaísmo, e nunca tiveram problema com isto, pelo contrário, gerava curiosidade e querer aprender sobre os costumes do próximo é o primeiro passo para o bom relacionamento.

Esta proximidade só aumentou com o tempo, quando comecei a ter contato ainda mais próximo com as comunidades cristãs e também as muçulmanas, passamos Iftar (quebra do jejum do Ramadã) juntos, assim como convidamos nosso brimos para o Seder de Pessach, o jantar da Páscoa judaica.

No final do ano passado viajei para os Emirados Árabes Unidos, tive o privilégio de participar da delegação do JDCorps (braço diplomático do World Jewish Congress), do qual sou membro da mesa diretora.

Claro que nas reuniões com diplomatas, ministros de Estado e Membros da Família Real, a relação entre árabes e judeus seria tratada como algo não só desejado, mas praticado e incentivado. Eles tem inclusive um Ministro da Tolerância que nos recepcionou e nos provou como estão empenhados em normalizar as relações.

Finalmente quando tive um tempinho livre, caminhando pelas ruas da cidade e no Dubai Mall, escutando o estridente Hebraico que alguns Israelenses abusam, e percebendo que isto não incomodava ninguém além de mim (já desacostumado com os Sabras) fiquei maravilhado. Quando presenciei inúmeras vezes judeus e muçulmanos se ajudando, com banalidades, tirando fotos um dos outros, dando pitaco na pose e na direção da foto, pude comprovar quão real é esta paz, como finalmente nossos irmãos estão convivendo e prosperando, para o bem deles, para o bem da região, para o bem do mundo.

Amigos franceses e belgas da delegação ficaram boquiabertos quando no Shabat caminhamos do nosso hotel, para a sinagoga em Dubai, todos de Kipah na cabeça sem sermos incomodados, sem ao menos um olhar atravessado, sem medo, algo que estes europeus, segundo suas palavras, não ousam fazer em suas cidades.

Para ser sincero, não me lembro de um lugar (fora de Israel) onde minha judaicidade me deu tanto orgulho e me trouxe tanta emoção. A cada contato com os novos amigos Emiratis, maior era meu sentido de pertencimento a esta grande família Abraâmica, a cada conversa, entre um pedacinho de Pita com Humos ou Babaganuch e um suco de Romã, entre um cafezinho com cardamomo e uma deliciosa Knafe, percebia quão parecidos nós somos, quantas similaridades, na língua, nas comidas, nos costumes e até na religião.

Tomo a liberdade de usar algumas palavras do grande Rabino Jonathan Sacks, de abençoada memória, em um artigo do ano 2.000, época bastante complicada em termos de violência entre árabes e judeu.

Ele disse assim: “A língua hebraica tem duas palavras para força. Uma é koach, a outra, gevurah. Koach é a habilidade de superar um inimigo. Gevurah é a capacidade de superar a si mesmo, controlar o desejo de vitória e praticar o autocontrole.Você precisa de um tipo de coragem para vencer uma guerra, mas precisa de outro para fazer a paz. A paz é difícil porque significa deixar de lado as emoções que estão próximas ao nosso próprio senso de identidade. Para fazer a paz, judeus e árabes devem abandonar sentimentos profundamente enraizados de vulnerabilidade e dor. Isso é difícil, mas não há outra maneira.”.

O chamado para todos nós é muito claro, é o de sermos pacificadores, os propagadores da paz, do exercício do entendimento, da aproximação ao próximo, vestindo seus sapatos, sentindo sua dor, entendendo seu passado e ajudando seu futuro.

Cada um de nós, famílias de Abraão, leva adiante as bênçãos que D’s concedeu a ele e é por isto que temos em comum a mensagem de Paz, Shalom, Salam.”

As senhoras de origem árabe cristã do Clube Monte Líbano, consagradas como vencedoras pelo júri técnico, junto com o consagrado Chef Libanês, Georges Barakat.
Sra. Ghazal Baranbo, de origem Síria que levou o segundo lugar no júri técnico.
Sra. Taghrid Ali Dib originária do Libano, junto com Sheikh Houssam El Boustani, terceiro lugar pelo juri técnico.

Se tudo der certo, vamos repetir esta maravilhosa experiência, maior, mais aberta e melhor, Bezrat Hashem, InshaAllah!

About the Author
Ariel é administrador de empresas formado em Comercio Exterior no Mackenzie, tem um MBA em Marketing na ESPM e Curso de Especialização em Liderança Empresarial e Comunitária na Instituição de ensino superior e pesquisa Insper e no Instituto Rutenbergem em Haifa - Israel. É palestrante ativo com apresentações em escolas, sinagogas, centros comunitários, igrejas, clubes, etc, com 25 anos de voluntariado comunitário como monitor, instrutor, dirigente e diretor de instituições. Há mais de 22 anos é um estudioso e entusiasta da historia, política, diplomacia e geografia no mundo mas principalmente do Oriente Médio. Morou em Israel e já retornou mais de uma dúzia de vezes para lá e para outros países da região (Egito, Territórios Palestinos ..). Em várias oportunidades teve contatos, encontros, discussões com diversas autoridades, formadores de opinião e jornalistas, em Israel, EUA e Brasil. Escreve artigos publicados em diversas mídias, como a Revista Shalom, Blog do Jornal Times of Israel, Tribuna Judaica e Portais como Pletz, WebJudaica, sites, etc ... Membro do SC (Steering Committee) do JDC (Jewish Diplomatic Corps) braço diplomático do WJC (World Jewish Congress) guarda-chuva de mais de 100 comunidades em todo mundo, Diretor na JJO (Juventude Judaica Organizada), membro do Conselho do Fundo Comunitário Jovem e membro do Conselho da Hebraica.
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