Lições de Jerusalém

Visitar Israel é sempre um grande prazer, uma grande alegria, sempre uma realização. Poder visitar no ano em que Israel completa 70 anos de independência é uma alegria ainda maior.

Estive em Israel a convite do American Jewish Committee (AJC) junto com seu grupo de jovens lideres, o Access (que iniciou suas atividades no Brasil no final de 2017), no já há muito tempo consagrado Global Forum desta centenária organização americana que fez e faz muito para o bem de inúmeros países em todo mundo.

Este Fórum Global é um evento de altíssimo nível, com presença de pessoas de dezenas de países reunidos para debater, conhecer, trocar ideias e contatos além de estreitar relacionamento com indivíduos que muitas vezes enfrentam desafios similares em suas comunidades.

O AJC, com todo seu contato muito próximo com líderes do mais alto escalão em todo mundo sempre traz políticos, formadores de opinião, e pessoas realmente influentes para apresentar suas experiências, para discussões (algumas vezes acaloradas) e para trazer informações das mais atuais possíveis, muitas vezes nunca antes apresentadas em público.

Foi o caso do super jovem Chanceler da Áustria, Sebastian Kurz, que fez historia nesse Fórum ao afirmar com todas as letras que a Áustria teve um papel importante na ajuda aos nazistas para o extermínio de milhões de judeus, deixou claro que ao contrário do que sempre foi dito em seu país, apenas uma minoria da população austríaca ajudou a salvar seus compatriotas judeus, e muito por isto hoje a Áustria tem o dever moral de ajudar na defesa do único estado Judaico do mundo.

Foi um momento estarrecedor quando ficamos todos boquiabertos ao escutar esta verdade tão esperada e de repente veio justo da boca do maior mandatário daquele país. O “choque” foi de tal maneira que o CEO do AJC, David Harris, sempre muito polido e diplomático, quebrou o protocolo e subiu ao palco para agradecer as palavras de Sebastian Kurz, depois de um longo abraço contou a historia de sua própria família. Disse que seu pai, um austríaco sobrevivente do Holocausto ficaria orgulhoso de poder escutar, depois de tanto tempo, palavras tão esclarecedoras do líder máximo do país que tanto o maltratou.

Sebastian Kurz no Global Forum do AJC

Tivemos um encontro super sigiloso, inclusive com retenção dos aparelhos celulares na entrada do evento, com jovens árabes muçulmanos do Marrocos, do Egito e da Jordânia, todos muito corajosos por mostrarem suas caras mesmo correndo grande risco em seus países por ousarem contato com judeus em Israel.

Nos contaram de suas experiências e de como foram doutrinados desde pequenos a odiar judeus e israelenses, unicamente por serem… judeus e israelenses. Estes tiveram a curiosidade maior que o medo e resolveram ir atrás para em pouco tempo comprovar o quão errados estavam e o quão errada continua a educação em seus países.

Este encontro me trouxe uma confusão de sentimentos, por um lado é uma esperança de um entendimento futuro de maneira crescente, por outro lado a frustração de ver que os que ousam ter relacionamento com israelenses, tem que se esconder para não correr risco de vida.

No segundo dia tivemos um almoço muito agradável com o Embaixador do Brasil para Israel, uma pessoa super consciente de seu papel e um dos mais ponderados que já conheci até hoje neste cargo. Falamos de parcerias comerciais, falamos de troca de experiências culturais, falamos do conflito e do papel do Brasil, tudo muito esclarecedor e um grande alivio em saber que as relações entre nossos queridos Brasil e Israel estão em boas mãos.

No dia seguinte, fizemos uma visita em uma cidade na região de Gush Etzion que se chama Efrat, esta cidade foi o lar de várias famílias judaicas antes da independência de Israel até que todos tiveram que evacuar durante os conflitos com os árabes da época. Vários judeus foram mortos no local e os demais que se renderam foram cruelmente assassinados pelas tropas Jordanianas. Desde então este local ficou de fora da linha verde, portanto em território sob disputa, mas em um local onde judeus e árabes tem uma relação muito positiva a ponto de não haverem cercas entre as comunidade.

A prefeitura de Efrat fornece água e outras ajudas aos vilarejos árabes vizinhos e seu prefeito frequentemente visita estes locais, mas também recebe a visita destes mesmos vizinhos como, por exemplo, na festa de Sucot quando judeus de todo mundo, e claro também em Efrat, montam cabanas para refeições lembrando os 40 anos de êxodo dos judeus no deserto após a sua saída do Egito.

Em dada ocasião vários vizinhos árabes convidados pelo Prefeito foram participar de uma destas refeições, foi um momento incrível de confraternização onde todos puderam aproveitar um período de paz, juntos em harmonia.

Até que, como em qualquer encontro nos dias de hoje, algumas pessoas tiraram fotos e postaram nas mídias sociais… No dia seguinte vários dos vizinhos árabes foram presos pela Autoridade Palestina e interrogados sob a acusação de normalização com a entidade sionista (?!?!), difícil de acreditar que um simples encontro fraternal entre vizinhos tenha se tornado em um grande problema para estas pessoas.

Confraternização de vizinhos, árabes e judeus, com o Prefeito de Efrat.

Em seguida, visitamos o hospital de Efrat que emprega e presta socorro para todos, judeus, muçulmanos, árabes, beduínos, absolutamente todos que precisem de ajuda, sem distinção. São médicos árabes, cirurgiões judeus, enfermeiros cristãos e ajudantes ortodoxos, todos em harmonia para um bem comum. Pelas palavras de uma das médicas, “quem chega aqui não tem sua origem checada, ninguém pergunta sua religião. Se precisa de ajuda, ajudamos na hora, sem hesitar”.

Esta cena é bastante rotineira nos hospitais de Israel, mas vê-la em um território sob disputa é ainda mais impressionante dada à quantidade de noticias negativas que recebemos destas localidades.

No ultimo dia fomos agraciados com a visita de duas lindas mulheres, a Miss Israel, que por acaso é filha de brasileiros, e surpreendentemente a Miss Iraque que veio à convite do AJC visitar sua amiga em Israel.

Elas se conheceram no concurso de Miss Universo, se identificaram e logo se tornaram amigas, como é normal, decidiram postar nas mídias sociais uma foto juntas, ai começaram os problemas. A Miss Iraque e sua família começaram a sofrer ameaças de tal modo que se viram obrigadas a fugir de seu país pelo “grave” erro de se confraternizar com uma Israelense.

Miss Israel e Miss Iraque juntas em Israel

Após esta linda demonstração da amizade que venceu o terror e prosperou, tivemos outro exemplo de coexistência possível e necessária quando entrou no palco um ferido sírio da guerra civil e seu médico do hospital de Nahariya, no norte de Israel.

Este rapaz estava tentando fugir com sua família da zona de conflito quando levou um tiro no rosto dentro do carro que estavam. Ele está em tratamento em Israel há mais de um ano com várias cirurgias de reconstrução facial já que o estrago foi bem grande. Ele nos contou a forma que os israelenses são mostrados na Síria sendo os grandes inimigos e como isto mudou na sua cabeça e nas cabeças das famílias de mais de 4.000 feridos sírios tratados em Israel.

Sua gratidão é enorme, mas ainda assim ele não pode aparecer em publico (veio ao palco de boné e com o rosto coberto) sob pena de ser morto por traição quando voltar para sua cidade.

Em outro momento muito tocante, o médico deste hospital nos contou de um caso recente quando um homem chegou às pressas com um tiro em sua nuca, cirurgia complicada demorou horas até que conseguiram livrar ele da morte certa caso tivesse permanecido na Síria.

Dias depois, ao acordar, os médicos foram visita-lo, assim que chegaram no quarto o paciente começou a gritar por que os médicos haviam salvado sua vida, por que não deixaram que ele morresse…. Um dos médicos, no típico jeito israelense questionou se um “muito obrigado por salvar minha vida não seria bom?”, o homem aos prantos respondeu: “a última coisa que vi antes de levar este tiro, foi a cena dos meus dois filhos de três e cinco anos sendo executados na minha frente”…

Momento muito difícil onde boa parte de nós se emocionou com o relato do médico que caiu em prantos em pleno palco ao se lembrar desta triste historia entre tantas outras que mal ficamos sabendo, mas que acontecem diariamente no Oriente Médio, com a rara e louvável exceção de Israel.

Enfim, foram dias intensos com muito aprendizado, muitas trocas de informações, muitas experiências que só poderiam acontecer ali, naquele momento, com aquelas pessoas.

Fica uma grande gratidão por mais esta oportunidade e uma injeção de ânimo para continuar o árduo trabalho para nossas comunidades e para nosso Estado tão difamado, mas tão querido.

Ariel Krok

arielkrok@gmail.com

About the Author
Ariel é administrador de empresas formado em Comercio Exterior no Mackenzie, tem um MBA em Marketing na ESPM e Curso de Especialização em Liderança Empresarial e Comunitária na Instituição de ensino superior e pesquisa Insper e no Instituto Rutenbergem em Haifa - Israel. É palestrante ativo com apresentações em escolas, sinagogas, centros comunitários, igrejas, clubes, etc, com 25 anos de voluntariado comunitário como monitor, instrutor, dirigente e diretor de instituições. Há mais de 22 anos é um estudioso e entusiasta da historia, política, diplomacia e geografia no mundo mas principalmente do Oriente Médio. Morou em Israel e já retornou mais de uma dúzia de vezes para lá e para outros países da região (Egito, Territórios Palestinos ..). Em várias oportunidades teve contatos, encontros, discussões com diversas autoridades, formadores de opinião e jornalistas, em Israel, EUA e Brasil. Escreve artigos publicados em diversas mídias, como a Revista Shalom, Blog do Jornal Times of Israel, Tribuna Judaica e Portais como Pletz, WebJudaica, sites, etc ... Membro do JDC (Jewish Diplomatic Corps) do WJC (World Jewish Congress) ; Diretor na JJO (Juventude Judaica Organizada); Conselheiro no Fundo Comunitário Jovem;
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